Image for post
Image for post

Normalmente, eu não saberia dizer como essas coisas aconteceram. Tudo passou muito rápido. Um ou outro detalhe eu consegui compreender à época, mas o andar dos anos acabou fazendo com que eu me esquecesse até mesmo dessas poucas lembranças. É engraçado que eu ainda consiga contar alguma coisa.

Eu trabalhava em um jornal, para o qual escrevia contos duas vezes por semana. Meu editor, Art Blintze, sempre dizia que o mundo precisava de histórias. À época, eu ainda escrevia sobre demônios interiores e coisas do tipo. Os curtos cinco meses que passei na faculdade de psicologia, até quando minha mãe morreu, haviam me convencido de que já estava apto a vender aos outros filosofias baratas sobre eles mesmos.

Numa terça-feira à tarde, fui ao jornal resolver um problema com um dos cheques que eles tinham me dado como pagamento e me encontrei com Art Blintze. Sua cara redonda, rodeada de tufos de cabelo amarelo, era pura apreensão e angústia. Quando entrei na sua sala, ele me deu um abraço e foi logo dizendo:

“Você… Olha, acho que fiz uma bobagem, uma grande bobagem!”

“Que tipo de bobagem?”, perguntei.

“Veja só… Não, entra! Senta ali, vou fechar a porta.”

Durante todos os anos em que convivi com Art Blintze, ele sempre tinha feito bobagens. De uma maneira bem característica, Art Blintze parecia provocar reações contraditórias nos que estavam ao seu redor. Mas essa e outras histórias eu sempre ouvi das bocas dos outros, ele jamais comentava nada sobre si mesmo comigo.

“Café?”, perguntou. “Tem chá também, leite, alguns biscoitos… Ai, por Deus, garoto!”

“O quê?”

“Escolha algo logo, pegue… Tudo certo, então, não pegue nada. Olha, preciso te falar, porque é algo que não consigo mais guardar só pra mim, não com você aqui… Veja bem, confio em você, hein, te conheço há anos! Sei também das coisas que você escreve, sou seu editor, já li de tudo, então acho que você pode ajudar.”

“No quê?”

“Não interrompa!”, Art rugiu, jogando-se em sua cadeira giratória. “Desculpe, me desculpe… Mas, menino, graças a Deus você apareceu por aqui. Estive pensando o dia todo em telefonar pra você, mas tive vergonha de chamá-lo e então… Então você aparece. Diga a que veio, tem assuntos a tratar? Isso bem que pode ser um sinal…”

“Sim… Quero dizer, não. Talvez. Olha, eu não sei, Art, se estou entendendo…”

“Deixa!”, ele interrompeu. “Isso pode esperar. Preciso te perguntar uma coisa, mas não fique constrangido, só preciso saber disso pra ter certeza de que você vai entender bem o que vou dizer depois. Não vou te julgar, nunca faria isso. Mas então… Vem cá, menino, você já esteve com mulheres? Hein?”

Não entendi direito a pergunta e mesmo se a houvesse compreendido perfeitamente bem não adiantaria muito. Se já estive com mulheres? Era mesmo tempo engraçado e deprimente ouvir Art Blintze me perguntar aquilo, como se minha vida sexual fosse inviabilizada pela minha própria existência. Aonde ele queria chegar eu não fazia ideia, mas, mesmo assim, respondi.

Disse que, sim, eu estivera com mulheres, não muitas, especialmente não muitas das quais eu gostava de me lembrar, e que possuía certo conhecimento sobre o assunto, caso ele precisasse aprender algo. Art pareceu ofender-se e minha provável (embora não intencional) ofensa serviu para desanuviar momentaneamente seu semblante tenso.

Acendeu um charuto e a sala inteira se impregnou com o cheiro forte de fumo queimado. Eu odiava aquela coisa, ainda mais quando eu e ela estávamos no mesmo lugar, mas suportei o charuto e deixei que Art recomeçasse a falar.

“Não é isso”, ele disse. “Faça-me o favor, garoto! Enquanto você engatinhava eu já fazia outros que engatinhariam como você… Ai!”, e aí ele soltou um grito exagerado. “Isso me persegue, está até nessas brincadeiras que faço. Escute bem, lembra-se que comentei sobre Mishna, uma garota que engravidei muitos anos atrás?”

“Você nunca falou sobre isso”, eu respondi, mas é óbvio que eu bem sabia de Mishna e o que havia acontecido com ela.

“Certo, não diretamente, mas espalhei a história de que ela fugiu e não deixou que eu me aproximasse do garoto, do nosso filho. Está lembrado? Deve ter ouvido isso de alguém.”

“Sim.”

“Pois bem, é mentira. A gente inventa essas coisas, menino, inventa e espalha por aí porque nos fazem bem, fazem com que os murmúrios morram. E os murmúrios precisam morrer, de uma forma ou de outra. Está entendendo? Certo, não importa… A verdade é bem outra.”

Art parou de falar e serviu-se de uma dose de uísque, cuja garrafa escondia dentro da gaveta da mesa. Eu já estava um tanto impaciente com tudo aquilo, ainda conservava-se em mim algo da inquietação da juventude. Ao contrário do que Art Blintze podia pensar ao me chamar de garoto ou menino, eu já tinha lá meus quase trinta anos, e era ele, o editor de um pequeno jornal, quem parecia criança dessa vez, aparvalhado, inconstante e perdido. Pousou o copo à mesa e retomou a fala:

“No início de 1931 eu era jovem e tolo. Melhorei um pouco de lá pra cá, mas não muito. Acontece que conheci Mishna na matinê do cinema e me apaixonei naquele mesmo instante. Isso às vezes acontece, embora eu não recomende. Fomos para a cama em uma das primeiras oportunidades e semanas depois ela descobriu que estava esperando um filho meu. Um filho! Mishna quis casar, mas eu não. Acabou que brigamos feio e meu caso com ela terminou de um jeito bastante conturbado.

“Um dia eu estava no trabalho, na loja de tecidos dos Akiva, ali na esquina da rua 3 com a 4, quando recebi uma carta trazida por um mensageiro. Era de Mishna e dizia que ela havia abortado a criança e se mudado da cidade. Nunca mais queria me ver em vida, escreveu. O que eu poderia fazer? Tentei contatá-la, mas não consegui. Então, tive que acabar me conformando com a sorte e seguir vivendo.”

Ele bebeu outro gole de whisky.

“Bem, tempos depois tive uma espécie de sonho. Foi a primeira vez que sonhei desse jeito, mas não a última. Nunca há uma última vez para esse tipo de coisa, eu acho… O sonho você pode me dizer qual foi.”

“Como é?”, perguntei, sem entender.

Ele remexeu algumas das folhas que estavam no meio da sua mesa bagunçada e me entregou um papel amassado e borrado. Era um conto meu, “Uma visão e um sonho”, se chamava. Deveria ser publicado na próxima edição do jornal.

“Leia”, disse Art.

“Não preciso”, respondi, “eu me lembro bem desse”.

“Está certo…”, ele falou. Suas pupilas estavam bem abertas e atentas. “Você escreveu aí sobre uns sonhos, não foi?”

“Quê? Sim, são visões”, respondi.

“Que sejam, que sejam… Não importa. Pode ler essa parte para mim em voz alta?”

Li a passagem das visões, como ele havia pedido. Ao final, Art Blintze estava meio chorando, meio gemendo, meio em comunhão consigo mesmo. Já eu não sabia que reação esboçar. Aquelas visões do texto não eram chocantes, nem dramáticas ou desoladoras. Se ele estava exagerando ou verdadeiramente comovido, eu não saberia dizer.

“Isso é com o que eu sonho todas as noites, menino!”, disse Art. “Como pode algo assim? Você sabe dos meus sonhos, mas apenas eu, e mais ninguém, é que os conhecia até então. Isso me chocou, um garoto entrou na minha cabeça e pegou lá dentro algo que me atormenta há trinta anos! Como você fez, me diga… Como escreveu isso?”

“Não sei”, respondi, sem esconder a surpresa. “Apenas escrevi, não há muita lógica no modo como faço essas coisas…”

“Já sonhou com isso também? Hein?”

“Não.”

“Então, bom, só pode ter alguma coisa aí dentro de você. Ninguém que não fosse especial de alguma maneira poderia saber algo tão íntimo de mim. Você acredita nisso? Porque essas coisas são minhas, garoto, tudo o que está aí, os sonhos que você transformou em visões. E visões de quê, de futuro? Não consegui terminar de ler, me atrapalhei suficientemente só com essa parte.”

“São, sim, de futuro”, eu disse.

“Hum… Mas não há futuro nisso, há? Não em mim, quero dizer. À noite, Morfeu ou qualquer outro demônio que seja povoa meu sono com o nascimento do garotinho, seu primeiro caminhar, suas idas à escola, seus namoros na juventude… Noite após noite, essas cenas vêm até mim e me atormentam. Vejo de camarote a vida de um filho que nem chegou a nascer. Será que é assim que ele viveria, se a mãe não o tivesse tirado?

"Com o tempo, me arrependi por ela ter feito isso, porque fui eu — e não me orgulho nada disso, saiba de antemão –, que sugeri a ela essa coisa como a única alternativa e a ensinei como fazer. Não me leve a mal, hoje eu nem pensaria em algo assim. Mas, veja bem, talvez haja algo de bom nisso tudo… Não digo para a criança, meu Deus, é claro que não! Mas para mim… A gente é mesmo egoísta, né?”

Ele parou por um instante, reacendeu o charuto, serviu-se de mais bebida e recomeçou. Eu continuava a ouvir, ainda tentando imaginar como tudo aquilo se encaixaria.

“Pois bem, garoto, creio que eu nunca amaria aquela criança se ela tivesse nascido. Na verdade, há uma boa chance de que jamais desejasse que ela estivesse viva. Penso assim, talvez esteja errado, mas quem sabe Mishna não tenha feito um favor, não apenas ao imbecil que eu era quando jovem, mas também ao velho emotivo e fraquejante que sou hoje? Pelo bem ou pelo mal, foi ela quem formou meu caráter, posso afirmar sem medo de estar falando bobagem.

“Porque a bobagem eu fiz anos atrás, ter pedido a ela que se livrasse da criança. O mal que isso causou a ela, isso e a minha falta de apoio e as ameaças constantes… Mas talvez não… Ou talvez… Eu não sei quem são o fraco e o forte nessa história. Ela deve ter preferido tirar de dentro de si aquele pedacinho de mim que só fazia crescer cada vez mais. Desgracei duas vidas, menino, a de Mishna e a de meu filho.

“Mas eu ainda rezo, sabe…? Eu alimento alguma esperança de que ela tenha mentido pra mim, dado à luz a criança e se escondido do porco que eu era. Nas circunstâncias atuais, eu realmente amaria esse garoto, mas precisei de décadas recebendo suas visitas noturnas… Ou a de seu fantasma. Ai, eu precisei disso tudo para que aprendesse a amá-lo.”

Art Blintze segurou a minha mão e disse com calma:

“Por isso, menino, é que seu texto mexeu tanto comigo, essa história que você conta sobre o pai que tem visões da vida do filho do qual dizia não querer saber nunca mais. Me conte o que acontece ao fim da história, preciso saber…”

“Bem”, disse eu, “os dois se encontram ao final.”

“E se reconciliam? Vivem felizes?”

“Na verdade, não. Quando você ler, vai ver que nas visões o pai não via o rosto do filho porque nunca chegou a conhecê-lo. Pois ele envelheceu, ficou diferente do que era, e o pai também, e nenhum reconheceu o outro quando finalmente se encontraram.”

“Sei… Garoto, você acha que isso pode acontecer comigo? Quero dizer, se por acaso meu filho estiver vivo, quem sabe eu lhe conte tudo isso, sem perceber que ali, à minha frente, é ele quem está me ouvindo, igualmente sem saber quem sou?”

“Penso que sim”, falei com sinceridade.

“É, eu também.”

Written by

Cientista Social. Produtor. Escritor.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store