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Um dia na vida de Alberto Portobello

É cedo e o menino Alberto se levanta para escovar os dentes. Ele se parece com a mãe, mas puxou os olhos do pai. É uma criança regular, de hábitos comuns e traumas genéricos. Não há nada nele que se destaque, além de gaguejos esporádicos e o medo de lugares moderadamente altos.

Ele acaba de escovar os dentes. Desce as escadas para se reunir ao restante da família, ao pai que lê o jornal, enquanto a mãe cozinha e o irmão mais velho apenas ocupa espaço com sua imbecilidade juvenil. Sua caneca de leite quente o espera em cima da mesa do café da manhã.

O menino Alberto sonha em ser policial quando crescer, seguindo o exemplo do pai e deixando-o orgulhoso. Ele carrega em si grandes esperanças, mas não sabe que a partir de 1964 a polícia não vai mais ser motivo de orgulho para a sua família. Também não sabe que seu pai cairá morto ao final da Copa do Mundo de 94, enquanto os vizinhos gritam gol. Nem que seu irmão vai trair a esposa pela primeira vez naquele mesmo ano (e certamente não faz ideia de que essa não será a última).

Dentre todas as coisas das quais o menino Alberto sequer desconfia está o fato de que estará morto ao final do último parágrafo. Em parte, ele não sabe disso porque realmente não sabe de muita coisa. Em outra parte, porque sua vida não é um conto, mas isto é.

O menino Alberto toma sua caneca de leite. Ele sorri. A vida é boa, enquanto ela é.

Cientista Social. Produtor. Escritor.

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