Image for post
Image for post

1.

Nada de bom acontece ao fim da vida. Você talvez ganhe seu último terno novo, mas é só isso. Então te estofam, trancam em uma caixa, e você lá, rijo, não percebe nada. Aí te jogam em um buraco e o cobrem com terra, com pó e grama e brotos de grama, e aí finalmente te esquecem. Mas aquilo que vive embaixo da terra não te esquece. E você desaparece aos poucos, enquanto tudo o que está acima continua sendo como era, ou um pouco pior. Mas do que adianta ser pior, se você não pode continuar se fodendo como todos os outros? Nos acostumamos a pensar que as coisas ruins que existem só existem para acabar com a gente. Então, se elas continuarem por aí sem nós, não faz diferença alguma se existimos ou não.

Nisso eu pensava enquanto a pá subia e descia, soterrando o caixão do meu pai. Nisso talvez um chinês também pensasse naquele momento, ou um inglês, ou um francês em depressão com uma arma vagabunda apontada para a têmpora, ou um alemão sem têmpora nem arma. Na morte. Se fôssemos pessoas melhores, talvez pensássemos na vida, mas isso ninguém faz.

Então a cerimônia foi encerrada e todos se dispersaram, mas eu fiquei ali para garantir que o túmulo do meu pai permanecesse inviolado por outra pessoa que não fosse eu.

“Escuta…”, eu disse, mas parei de dizer. As palavras estavam embargadas, assim como vinte e quatro anos de sentimentos. “Escuta… você não foi um bom pai e sabe disso. Foi ausente, estava sempre bêbado, cheirava mal… sabe disso. E agora morreu. Você morreu e deixou todo mundo na merda. Que porra de dívidas são aquelas?”

Eu precisava por para fora o que sentia. Talvez não precisasse chutar o túmulo do meu pai.

Parti, passando entre toda aquela gente morta atolada na lama. Precisava beber alguma coisa para alimentar o fígado e sucatear a memória.

2.

No bar, mais tarde, conheci uma mulher. Ela me ouviu por um tempo, sem que eu precisasse pagá-la. Ela não entendia muito da vida, mas sabia bem como escutar. Por umas cinquenta pilas, outras me escutariam e dariam vida a partes do meu corpo que não tinham boca, com as quais tentariam conversar, mas ela não era uma daquelas, nem eu queria que fosse.

Mais bebidas e meus cotovelos já doíam, os únicos pontos de apoio entre o meu corpo e o balcão. A mulher tinha ido ao banheiro.

“Amigo, está se sentindo bem?”, o barman me perguntava o tempo todo.

Barmen piedosos são como demônios que nos cutucam com garfos em vez de tridentes flamejantes. É claro que há lugares onde piedade é apreciada, mas aquele não era um deles.

Eu conjeturava. Não era inteligente o bastante para saber que conjeturava, mas fazia isso. No fundo, é pela incerteza que nós ansiamos. As dívidas do meu pai eram a maior incerteza de todas para ele, enquanto viveu, e agora também eram para mim. Como pagá-las? Meu pai talvez tivesse ansiado por um mundo de realizações, mas tudo o que conseguiu juntar foram dívidas que permaneceram vivas mesmo depois da sua morte. Isso de sonhos realizados, essa história toda sobre constância…

“Sabe… quando tudo está bem, você olha pra trás e sente saudade da miséria da vida em outros tempos”, eu dizia ao barman amigo. “Porque a miséria te acolhia no colo e você podia sonhar dentro da miséria. No mundo dos sonhos realizados já foi tudo sonhado, não é pra isso que a gente tá aqui, é? Não é pra fazermos o que queremos. É pra sermos vomitados na sarjeta pela vida, pra sermos um monte de merda, um monte de merda que sonha.”

O barman lustrava o balcão e me servia bebidas, mas não estava interessado em mais nada além de me empurrar álcool goela abaixo e perguntar se estava tudo bem. Não era culpa dele, a monotonia e os bêbados transformam os barmen nisso. Eu era a caricatura perfeita de tudo o que estava errado com os alcoólatras e, além disso, era pegajoso, amargurado, estava cansado do que me cercava. Com razão, talvez, mas a razão nunca fez de um idiota alguém melhor.

“Eu bebi… umas taças de vinho, depois umas canecas de cerveja… meu pai dizia que isso era errado, que o corpo não se acostumava com esse tipo de mistura… quero dizer, são bebidas diferentes… não são? Mas eu questionava… ‘pai, mas e as comidas?’. Então ele me perguntava: ‘o que tem as comidas?’ e eu respondia ‘são todas diferentes, mas mesmo assim a gente mistura…’. Ele não me dava resposta nenhuma.”

Silêncio.

“Quem tem as respostas…? Você tem as respostas?”

“Amigo, está tudo bem?”

3.

Acordei pela manhã em uma cama que não era a minha, com uma mulher que não era minha, com raios de sol entrando pela janela aberta, que também não eram meus. Eu ainda tinha a minha roupa no corpo. Com alguma sorte, se não tivessem me roubado, minha carteira estaria guardada no bolso da calça. Eu tinha gel velho emplastrando o cabelo, dor de cabeça, a garganta seca. Era tudo o que eu tinha.

Levantei da cama e perambulei pelo quarto procurando um cigarro. A mulher acordou.

“Bom dia.”

Resmunguei não me lembro o quê, dei as costas a ela e continuei procurando o cigarro.

“Volta pra cama, vem me esquentar…”

Olhei de esguelha para ela. Era a mulher do bar, tinha as mesmas marcas na cara da noite anterior, os peitos grandes, a bunda redonda. Não me lembro dos seus pés. Não havia cigarros ali, eu não sabia onde estava, a mulher me queria… o que eu deveria fazer? Lembrei que meu pai estava morto e quis não dar a mínima. Foda-se. Dívidas? Fodam-se… cerveja com vinho com uísque com vodca e o barman? Foda-se tudo.

Deitei na cama. Comi a mulher. Voltamos a dormir.

Sonhei com os campos de trigo reluzentes como ouro que eu havia visto na infância: as nuvens, bem brancas, faziam sombra sobre eles. Aquela era a minha melhor memória do que era a felicidade. Eu nunca voltei a ver aqueles campos.

4.

Semanas mais tarde, eu estava sozinho na porta da igreja. Não havia mulher comigo, eu a tinha deixado me esperando em sua casa desde que prometi voltar. Não gostava de cumprir promessas.

À porta da igreja eu ouvia rezarem, lá dentro, pela alma do meu pai. A língua dos padres, a língua de Deus… tudo o que eu aprendi foi a língua que os homens falam: meus améns eram palavras feias, meus rosários eram as cordas que eu puxava no porto, minhas cruzes eram as caixas de mercadorias que carregava sobre os meus ombros.

“Recebei este homem no Reino dos Céus…”, etc, etc.

E o Reino dos Céus era, para mim, o bar da esquina no qual fui parar antes da missa acabar. Eu estava um caco, quebrado por dentro e nos bolsos. As contas se acumulavam, nada parecia fazer sentido, todos tinham me abandonado. Não que eu tivesse muitos ao meu lado, mas diante da iminência de um colapso interno não me restava nem mesmo quem um dia me acompanhou na miséria.

“Cerveja!”, falei para o barman. Ele me trouxe a bebida.

Eu via pela janela a igreja e os amigos de meu pai saindo de lá e a minha mãe andando apressada pela calçada, os olhos inchados. Ela ainda chorava… como conseguia? Tudo o que eu sabia fazer era esperar. Sentar, beber, esperar. Comer. Dormir com mulheres que não me significavam nada, perder os outros significados que conhecia. Eu esperava, mais do que tudo, que meu pai saísse do túmulo, abrisse os olhos, me enxergasse e andasse até mim. Que me abraçasse, dizendo bem baixo naquela voz áspera que os cigarras o tinham dado: “Eu vou resolver tudo”.

Algumas lágrimas caíram dentro do meu copo de uísque. Perdido, ouvi o barman perguntar se eu estava bem. Paguei a conta e saí. Chegando à rua, me lembrei de responder:

“Vai à merda, seu filho da puta.”

5.

Voltei ao cemitério e à lápide onde o nome do meu pai estava gravado. Havia flores mortas ali, algumas minhocas, havia velas apagadas. Sentei sobre a grama e deixei o velho descansar ao meu lado.

Eu disse para ele: “Não quero acabar como você”. Ele não me respondeu, não tinha respostas, assim como não teve muitas outras vezes antes, durante a minha infância, durante minha adolescência conturbada, o início da minha idade adulta. Eu tinha medo de também terminar a vida endividado, de ter os meus poucos sonhos financiados e não conseguir pagar as infinitas parcelas.

Ele não podia mais me ajudar, nem com palavras, nem com o seu silêncio, mas eu precisava de ajuda. No desespero de encontrar um lugar onde me encaixasse nessa história, andei outra vez em meio às lápides, tomei a estrada de terra que levava à cidade e cheguei às esquinas movimentadas, ao puteiro que alimentava a vida noturna e às mulheres da vida noturna.

Me deparei com uma casa que não me era completamente estranha, com a pintura descascada, janelas mal lavadas, todas abertas. Sentei na varanda, tirei do bolso do casaco um cantil cheio de vodca. Bebi tudo em goles longos e fiz o que sempre fazia. Esperei.

6.

Na manhã seguinte, acordei com um zumbido horrível dentro da minha cabeça e com o meu estômago fazendo o papel de cérebro, seu trabalho sujo. A fome se ocupava de mim, eu era a fome. A fome estava deitada em algum lugar da cidade, sobre tábuas mais confortáveis que a sua própria cama. Eu tinha uma cama de molas, deitar sozinho nela machucava. Acompanhado, não. Me movimentando acompanhado, as molas pulavam e também o colchão e, na falta de aspirações maiores, eu parecia poder ser lançados ao céu. Agora, me lançava em tábuas.

Merda. O que eu tô falando?

O sol quente e o álcool começavam a fritar os meus lóbulos. O álcool pode sair do corpo, ele é lícito ao corpo, porque o corpo o controla. Já o sol, o corpo não controla, mas ninguém reclama disso. Deveriam… todos aqueles raios entrando em tudo quanto é lugar, sem sair, sem voltar, porque a luz não faz curvas, ao contrário das bebidas que entortam-se pela garganta. E ninguém reclama.

Chega. Viro para o canto e volto a dormir. Sonho, xingo sonhando, sonho que parei de xingar e que me redimi. Mas ainda assim acertam minha cabeça durante o sono. Não faço ideia se sonhei isso também. Merda, a cabeça dói.

Foi uma porta, aberta de súbito. Surgem mil teorias sobre portas que se deslocam de seus lugares nas paredes só para me atingir. Jesus, minha cabeça rachou. Fodeu. Escuto alguém gritar “Desculpa!”.

Dói demais.

“Desculpa, desculpa, desculpa!”

Era a mulher do bar, a que eu havia deixado esperando.

“Mas que merda, você…”

“Ai, vai formar um galo!”

Parecia minha mãe falando… eu não queria pensar na minha mãe, ela que sempre havia ficado ao lado do meu pai em tudo. Não queria minha mãe falando sobre galos, não queria minha mãe cutucando a minha cabeça.

“Se acalma!”, eu disse.

Sentei sobre as tábuas, a cabeça rodando. As coisas não faziam nenhum sentido. Comecei a me situar no tempo, mas só no tempo. O espaço é algo difícil, o espaço não gosta de bêbados.

“Como está se sentido?”

“Como você acha?”

“Foi um acidente. Eu esperei você por semanas, mas você não veio… o que te deu para ficar deitado aqui agora?”

“Eu estava dormindo.”

“Aqui?”

“A dez centímetros daqui.”

“Você bebeu demais…”

O mundo parecia se curvar diante das conversas óbvias das duas ou mais mulheres que eu via à minha frente, enquanto eu alucinava de dor.

“Você quer entrar?”

“Não.”

“Entra, eu faço uma bolsa com gelo e você põe aí no…”

“Não vou por nada em lugar nenhum.”

“Deixa de ser idiota, você precisa cuidar disso.”

“Até cuido, mas aqui fora. Não volto mais aí pra dentro…”

Ela se ofendeu.

“Foi algo que eu fiz?”

É óbvio que ela se ofendeu.

“Olha, está tudo uma bagunça, não sei o que estou fazendo aqui e agora ainda tenho a merda de um galo na minha cabeça… o que quer que você tenha feito é o menor dos meus problemas.”

Ela entrou na casa e eu fiquei ali, estirado na varanda. Minha cabeça estava dormente. Quando o sangue coagulasse, eu teria uma casca de ferida enorme prensando meus cabelos. Ia ficar horrível.

“Escuta, escuta aqui… você tem algo contra sangue coagulado?”, perguntei à garota, que não voltou a sair da casa. As únicas palavras que a ouvi dizer foram essas:

“Fica aí sozinho na sua fossa, minha ajuda você não vai ter”.

7.

Com o passar dos dias, fui voltando à minha rotina. Trabalhava no porto, morava na parte pobre da cidade, ia aos bares, dormia com mulheres, dançava em festas, tinha poucos amigos, me endividava, não pagava minhas dívidas.

Essa foi a minha vida logo após a morte do meu pai, quando passei a questionar os fundamentos da minha própria existência e o que estava construindo para o meu futuro. Foi a minha vida sete anos depois, quando as dores do luto e do corte na cabeça já haviam cicatrizado e as únicas dores que me restavam eram as dos calos nas mãos. Continuou a ser a minha vida até que chegou o dia da minha própria morte.

Eu nunca mudei, nunca fui diferente do que era, nunca fui como gostaria de ser. Com o tempo, caminhei rumo ao destino de tudo o que vive: dividi, cedo demais, a cova com meu pai. Pouco antes de morrer, relembrei a época em que o velho havia morrido e a pessoa que eu era. Voltaram à minha cabeça parte das palavras da mulher do bar, embora do seu rosto eu não conseguia me lembrar mais:

“Você está na fossa…”

Sim, o destino fez com que eu realmente estivesse na fossa do meu pai, com ele. Isso me levou a crer que todas aquelas coisas sobre família, pais e complexos que ouvimos da boca de psicólogos, psiquiatras e outros enganadores, quando resolvemos buscar ajuda, e enquanto eles arrancam a nossa grana… bem, todas aquelas coisas, se resumidas, são exatamente uma única coisa: a vida que a gente leva, a gente só leva para a cova.

Essa é a maior verdade sobre tudo, embora talvez não seja a única. Mas eu não sei de todas as verdades, assim como meu pai não conhecia todas as respostas. Durante a minha vida, tudo o que eu consegui ser foi ser o filho do meu pai.

Cientista Social. Produtor. Escritor.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store