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A última vez em que falei com o meu avô

Na última vez em que falei com o meu avô, antes que ele morresse de repente em um verão quinze anos atrás, o velho estava na varanda de casa bebendo cerveja e fumando um cigarro que eu lembro ser muito branco. Ele usava o chapéu que adorava usar. Vestia uma camisa aberta até o terceiro botão.

Meu avô não tinha cor. Era, na falta de descrição melhor, vermelho. Parecia estar sempre por perto, sempre atrás de uma janela, do canto de parede onde eu gostava de fazer rabiscos com giz. Às vezes eu podia ouvir a sua respiração descompassada através da porta. Ele perguntava “Sabe quem chegou?” e eu não respondia, fingindo não estar ali. Ele não dizia mais nada e a gente ficava assim, eu cá, ele lá, separados por uma barreira que poderíamos romper se quiséssemos.

Meu avô estava sentado na varanda de casa e apagou o cigarro em um dos vasos de planta da minha mãe assim que cheguei. Aquilo deixava as pessoas da casa muito incomodadas, mas eu ainda não dava a menor importância para os cigarros ou para as plantas. Estava mais preocupado em correr pelo bairro ralando os joelhos e cortando as mãos, perdendo o fôlego e ganhando-o de novo, só para perdê-lo mais uma vez.

Ele me perguntou o que eu fazia em casa àquela hora, se não devia estar na escola, essas questões de adulto. Eu disse que não tinha aula, que o pai de alguém havia morrido e a professora precisou nos mandar de volta para casa. Meu avô ergueu os ombros, um sinal que eu havia aprendido a reconhecer como se ele quisesse dizer “É assim mesmo”. Toda as vezes em que alguém dizia algo que o contrariava, ou que não precisava de resposta, ou que necessitasse urgentemente de resposta, ele erguia seus ombros largos em direção à cabeça.

“É assim mesmo”, verbalizou.

Cheguei bem perto dos seus pés e me sentei ali. Eu gostava de estar próximo dele, mais do que gostava de estar próximo de qualquer outra pessoa.

A gente se parecia em quase tudo, mas é claro que eu não sabia disso à época, porque era uma criança burra, e não fui saber até quando me contaram, muitos anos depois. Eu não sou um adulto esperto, mas ele era. Ele se sentava ali durante a tarde e ficava vendo as pessoas passarem na rua lá embaixo. Ele bebia cerveja, lia o jornal do dia, fumava, nos chamava para perto, nos afastava. Eu ficava hipnotizado com essas coisas, como se o meu avô fosse alguém para quem a vida tivesse dado muito certo, que não precisava se preocupar com absolutamente nada e podia passar a tarde inteira bebendo e cuspindo fumaça.

“Eu queria ser você”, disse a ele. “Porque amanhã tenho aula, mas você vai continuar aqui.”

Meu avô achava graça nas coisas que eu dizia, em parte porque eu devia mesmo ser uma criança burra, em outra parte porque as coisas que eu dizia o pegavam de surpresa. Ele passou a mão nos meu cabelos e deve ter descoberto que eu não os lavava há semanas, porque ao final daquela mesma tarde minha mãe me obrigou a lavá-los.

“Não me inveje por isso”, disse para mim.

Senti vontade de perguntar algumas coisas, de saber sobre o passado e as pessoas que eu não via mais na nossa casa. Fazia tempo que eu tinha vontade de perguntar sobre a minha avó, sobre onde ela estava agora, mas era uma tarde agradável e eu temia que minhas perguntas a estragassem. Eu olhava para os vincos na madeira e eles se uniam e se separavam, como se fossem rios escorrendo pela terra. A gente também se dividia em pensamentos, logo acima do chão, eu vagando pelos rostos de cada um da família, ele vagando por outras memórias, que eu não conhecia.

Meu avô tinha uma mania inofensiva de ficar alisando a mão esquerda, como se uma parte dela sempre formigasse. Não era algo que você perceberia, a menos que prestasse atenção nele por um longo tempo. Eu era um dos poucos que sabia daquilo. Ele coçava a mão e eu continuava sentado aos seus pés, olhando os vincos na madeira do assoalho.

Confessei que gostava mais do meu pai do que da minha mãe e ele ergueu os ombros. Disse que meu pai também gostava mais dele do que da minha avó. Perguntei se a vovó não ligava.

“Ela não se importa, porque não sabe.”

“Onde ela está?”

Meu avô coçou a mão e hesitou em responder. Eu percebi e voltei a olhar para as tábuas, em busca de mais marcas na superfície. Quando finalmente me respondeu, disse que ela estava morando na cidade de onde eles e meus pais tinham vindo, que estava sozinha lá. Não se falaram mais desde a separação.

Eu sabia sobre a separação, da qual ninguém mais comentava, porque tinha acontecido já há um bom tempo e não é de bom tom remoer antigos problemas. Mas eu não podia deixar de pensar que meu avô falava sobre aquilo com ele mesmo, diariamente; que ficava ali na varanda porque podia ler com calma o jornal, como se houvesse trechos de cartas antigas espremidos nas entrelinhas; que expirava o cheiro do cigarro como um dia inspirou o perfume dela. Tantas bobagens para um só menino.

Ele me lançou um olhar que confirmava as minhas suspeitas. Eu me achava muito bom em adivinhar pensamentos.

Pedi desculpas e me levantei.

“É assim mesmo”, me disse, erguendo os ombros.

A cerveja tinha acabado e a tarde estava chegando ao fim. Eu precisava sair dali e aproveitar os últimos raios de sol, antes que o terror da hora do banho se apossasse do meu corpo. Meu avô me perguntou se eu sentia falta dela.

Na verdade, a única coisa da qual eu me lembrava sobre a minha avó era da sua beleza, mesmo seu padrão de beleza tendo expirado há algumas décadas. Ela tinha os olhos azuis e os cabelos castanhos. Cantava uma música que me fazia dormir mais rapidamente do que qualquer outra música.

Respondi que não sabia direito, que tinha poucas lembranças dela, mas gostaria de vê-la de novo.

“Nós dois…”, ele me disse.

Ele era um homem forte, dava para ver. As mãos eram calejadas, a pele marcada de sol, tinha criado meu pai, que era uma das pessoas mais duras e difíceis que eu conhecia. Ele era uma pessoa forte não por ter enfrentado grandes aventuras ou perigos na vida, era forte porque desde cedo precisou ser.

Eu não sei qual parte dele inventei em minhas lembranças sobre aquela tarde, nem qual parte realmente existiu. Eu me lembro do velho, me lembro do homem, mas não sei o que ele quis dizer quando falou “Nós dois…” e completou com um sorriso apagado: “Mas não vale a pena”.

Eu o vi uma última vez, no dia seguinte, sentado na varanda contemplando o nada. Não nos falamos mais.

Seu velório aconteceu bem cedo, em uma manhã de muito sol, e as pessoas chegaram de todos os lugares, inclusive da cidade de onde ele e meus pais tinham saído. Dentre todas aquelas pessoas estava a minha avó. Os olhos ainda azuis, o cabelo um pouco menos castanhos, a pele branca e cheia de vincos, como a madeira. Eu a abracei e ela me abraçou de volta. Havia um protocolo a ser seguido, as pessoas estavam tristes e demonstravam sua tristeza, derramavam lágrimas sobre o meu avô morto e depois saíam. Eu sequer sabia quem elas eram.

Ele foi enterrado por volta da hora do almoço. Não me lembro de ter comido nada naquele dia. Eu pensava em muitas coisas e uma delas era aquela conversa rápida, que tinha sido a nossa última. Aquilo não me saía da cabeça, eu tentava entender, ligar os pontos, dar sentido a todas as tardes que ele passou sozinho na varanda.

No dia seguinte, enquanto comia uma asa de frango no almoço, lembrei da última coisa que ele me disse. As pessoas estavam sinistramente festivas ao meu redor e eu não entendia nada. Tentei me concentrar apenas na voz do meu avô falando aquelas coisas para mim, tentei me lembrar das suas exatas palavras, para ver se pelo menos aquilo eu conseguiria entender.

A lição que ele tentou me ensinar naquele dia talvez tenha sido que o presente e o futuro se tornam, invariavelmente, o passado e que não vale a pena sofrer por isso. A lição talvez tenha sido que devemos ser fortes ao enfrentarmos os nossos fins, como eu agora precisava ser, mesmo que isso significasse passar tardes inteiras fazendo nada, absolutamente nada.

Mas eu aprendi uma lição diferente: lembrando do jeito como ele acariciava a mão esquerda, onde antes ficava a aliança com o nome da minha avó, e vendo a maneira como ela também fazia o mesmo, sentada à minha frente na mesa da cozinha, eu aprendi que tudo dura para sempre.

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Cientista Social. Produtor. Escritor.

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