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Griszka Niewiadomski

Moshe Yahrzeit não acredita em nada: que governo, que guerra, que paz, que deus? O único diabo que conheceu em vida foi sua sogra, que deus a tenha. E coitado se a tiver. Mas ele não acredita em deus, então o que importa?

Moshe vive desse jeito há oitenta e dois anos. Se é feliz? E o que sei eu sobre a felicidade, para responder? Ela existe, de se pegar? Como não, então não, ele não é feliz. Sobrevive, o que mais podemos pedir?

Se Moshe não pudesse se tocar todas as manhãs, logo após acordar, duvidaria até mesmo que estivesse ali. Moshe Yahrzeit não acredita em nada e eu não acredito nele, quero matá-lo desde o dia em que o conheci, essa é a minha maior vontade, mas eu simplesmente ainda não posso. Merda.

Ultimamente, tenho me descontrolado, tido alguns tiques nervosos, falado em voz alta certas palavras ruins. Preciso de uísque, conhaque, cigarros ou mulheres. Merda, lá vou eu de novo, ansiando por uma vida comum para curar minhas frustrações, mas que grande… Tenho que me controlar e me recompor. Mas como? O maldito Moshe me deixa assim. Quando tenho que observá-lo mais de perto, prestar atenção em seus hábitos contidos, fico como estou agora, desejoso de experimentar outra vez a vida simples e patética que gente como ele leva, na esperança de encontrar a calma no passar dos dias.

Muitos homens da mesma idade que eu, até mesmo os mais novos que eu, já tiveram filhos, constituíram família, possuem chaminés em suas casas e assam leitõezinhos magricelas quando chega o Natal e eu…

Olha lá, Moshe Yahrzeit está saindo do seu banho, finalmente. Comecei a narrar suas atividades enquanto ele se esfregava. É uma criatura horrenda, quando nu, e talvez igualmente horrível quando está vestido. A verdade é que não consigo captar com precisão o sentido que tem a beleza: pernas bem delineadas, seios fartos, nádegas arredondadas? É tudo carne. É provável que as pessoas também achem os leitõezinhos bonitos e se excitem com eles, não? Tomara que não… Gostaria de continuar observando-as sem ter de me deparar com uma cena dessas.

Moshe já está vestido, graças a deus. Desce as escadas para a sala de jantar, onde a ceia o espera. Profere algumas bençãos vazias antes de comer, apenas pela força do hábito, e ingere a comida. Parece um porco. Talvez os porcos não sejam mesmo atraentes. Talvez eu tenha fixação por porcos.

Enquanto come, pensa em tudo o que lhe desce pelo esôfago. Desacredita até mesmo na comida. Questiona se é ela que o sustenta de verdade, se não seria apenas uma engodo para ele e o seu estômago. Que sentido há nisso? É melhor que termine logo de questionar o arroz e a carne, que tédio.

Acaba de jantar e continua sentado à mesa, sozinho, sem se fazer outras perguntas. A mulher de Moshe Yahrzeit morreu há três anos, seu nome era Lintze. Desde a sua morte, ele sempre permanece dez ou quinze minutos a mais à mesa, sem fazer nada. Esse era o tempo que Lintze demorava para terminar de comer.

Moshe avisa à criada que está satisfeito e anda até a sala de estar. Puxa uma poltrona, acende um cachimbo e fuma. Fuma. E fuma mais. Rodelas de fumaça azulada flutuam à sua frente. Poderiam formar barcos, dragões ou charretes? Sim, mas ele jamais conseguiria fazer isso. Eu talvez consiga, mas nunca tentei. Uma pena, quem sabe eu possa esfumaçar dois cavaleiros e fazê-los lutar entre si? Que tipo sangue sairia deles quando se ferissem, faíscas e fogo?

O cachimbo de Moshe se apaga. Sente-se incomodado com isso, gostaria de continuar ali, questionando-se sobre fumaça e prazer, mas já deu a hora de dormir. Guarda essas questões internamente, um mimo sobre o qual quer trabalhar no dia seguinte. Sobe as escadas, vacilante, levemente embriagado pelo sono. Seu quarto é escuro, possui apenas uma pequena janela que dá para a rua. Sua cama é grande e confortável, o colchão estofado com penas de ganso. Ele deita e se cobre com um manto grosso, adormece em pouco tempo, sem recitar as orações noturnas. Tomo nota disso, não é a primeira vez que procede assim.

A noite voa, cedendo lugar à madrugada. Olho para o céu e conto as estrelas, vejo com o rabo do olho a posição da lua. São exatas três horas, já chegou o momento.

Desço do telhado onde o estive observando, até chegar à janela do quarto de Moshe Yahrzeit, o homem que não acredita. Entro sem fazer barulho, eu nunca faço. Chego bem perto da sua cabeça oval, observo os cabelos despenteados e a barba rala. Patético e frágil… Que graça há nisso? Faço porque é meu trabalho. Gostaria sinceramente de matá-lo, mas não dessa maneira, não quando é chegado o tempo. Mas que escolha eu tenho? Acho que também sou frágil e tolo, sujeito a vontades maiores, alguém que apenas não se deu conta da sua insignificância diante de tudo. “Mas que certeza posso ter? Isso não existe!”, eu poderia dizer, como ele mesmo exclamou quando Lintze morreu e o rabino da cidade veio lhe consolar com as palavras de sempre: “A morte é a única certeza diante de tudo, Moshe”. Foi nesse momento que começou a desacreditar.

Talvez não fosse culpado pela descrença, quem é que entende de verdade o quanto a dor pode mudar um homem? Mas não importa… Ele ainda é o que é, mas é provável que agora volte a crer em pelo menos uma coisa. Inevitavelmente, vai passar acreditar em mim. Para Moshe Yahrzeit e toda a sua descrença, é sempre chegada a hora da morte, a verdade da qual não dá para se esconder.

Rompo, com uma lâmina cega, o fio que o prende ao seu mundo. Vejo sua alma abandonando o corpo e pairando diante de mim, azulada como os círculos de fumaça que saíam de seu cachimbo horas atrás. Talvez eu me divirta um pouco, soprando da minha boca um guerreiro para lutar com ela. Que tipo de sangue seria derramado após a batalha? Nada de faíscas, eu suponho. O fogo já se apagou.

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