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Ela desenhou uma cruz no meu braço esquerdo com a caneta azul. As aulas de catecismo eram doidas, os símbolos sagrados vinham parar nas nossas peles como se fossem marcas da besta. Não entendíamos nada do que estava sendo dito e ressignificávamos tudo da maneira como as crianças fazem, releituras não solicitadas de livros que continham muito sangue e muita morte e leis demais para que as nossas cabeças pequenas pudessem entender. Esse pastiche nos perseguiria depois na vida adulta, viveríamos obcecados com significados, com a busca da verdade em um mundo permeado pelo ocultismo das nossas ações.

Ela desenhava coisas em mim o tempo todo. Teve uma época, quando descobriu o que significavam, que as canetas vermelhas eram frequentemente usadas para ilustrar minhas mãos com tudo quanto é tipo de caralhinhos voadores. Achávamos contraventor, levávamos esporro das professoras, mas prosseguíamos — eu deixando, ela fazendo — sem ter medo de nada, porque não entendíamos muito bem as consequências de tudo e, para ser bem sincero, elas nunca eram graves demais. Nada era.

A gente cresceu juntos na mesma cidade, até que transferiram seu pai para outro lugar e isso levou sua família para longe. Só fui encontrá-la outra vez cinco anos depois, bêbada, saindo de uma festa na capital. Nos religamos no momento em que eu segurava seu cabelo para que ela pusesse para fora o excesso de álcool que circulava pelo seu corpo. E como ela pôs… Fomos parar depois em um McDonald’s aberto 24h e ela comeu uns dois Big Macs, graciosamente. São muito loucas essas coisas, que na época eu chamava de acaso. Hoje, chamo da vida querendo ferrar ainda mais com a minha cabeça.

A gente não tinha mais nada em comum (canetas à parte, porque não havia nenhuma ali), mas o contato que tínhamos perdido, retomamos depois dessa noite. Semana após semana saíamos juntos para festas na capital, pegando carona com amigos que dirigiam, entrando clandestinamente em ônibus na rodoviária e fingindo que estávamos dormindo quando o motorista passava pelas nossas poltronas para verificar os bilhetes. Noites em branco. Madrugadas cheias de adrenalina sendo destilada nas veias picotadas. Aspiradas como pó, tragadas traqueia adentro.

Nos beijamos em tantas situações diferentes que elas preencheriam uma coleção inteira de volumes da enciclopédia britânica. Trepamos em tantos lugares que para documentar isso aí seria necessário um atlas, embora pra ser sincero não precisasse ser dos mais completos. E foi assim durante mais dois anos, a fumaça que saía da boca de um alimentava o pulmão do outro, o fogo mútuo nos aquecia na noite fria.

Era bonito de um jeito triste. Estávamos limitados pelas nossas insuficiências, um relacionamento fagocitado pelas carências e pelos traumas que desbloqueávamos enquanto íamos vivendo. Foi exatamente a vida que deu conta de terminar com tudo, me levando a engravidar outra conhecida da infância que nunca tinha desenhado em mim, que nunca tinha compartilhado comigo a audácia de ser uma criança estúpida em um mundo de pais que tentavam sintetizar filhos perfeitos. Foi traição demais pra ela e demais pra mim, então ela se mudou de novo e nunca mais nos vimos.

A criança nunca chegou a nascer, mas não é isso o que importa, é? Não interessa o produto dos meus atos, apenas o poder que eles têm de distorcer a realidade para que ela se adeque a eles. O erro transforma a verdade em mentira, o futuro em passado, o presente em dias nostálgicos. Abre espaço para a vontade de voltar atrás, para quando era possível errar sem perder. Mas quanto mais perco, menos tenho o que errar.

Agora, o que eu tenho é uma cruz preta eternamente desenhada onde ela costumava me riscar de azul. Funciona como uma memória do que poderia ter sido. Uma lembrança de que a gente mesmo se encarrega de escolher o que não poderemos ter.

Cientista Social. Produtor. Escritor.

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