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i.

a gente se jogava no rio e ficávamos submersos, contando quanto tempo conseguíamos aguentar sem voltar à superfície. eu sempre terminava em segundo ou em terceiro lugar, mas o André ganhava todas as vezes. ele ficava embaixo d’água por quase dois minutos, em um lugar onde a corrente não o puxava e seus pés tocavam o leito do rio. ele ganhou até que perdeu, então não voltou mais à superfície. acharam seu corpo quase uma semana depois, batendo contra pedras a quilômetros de distância de onde a nossa competição costumava acontecer.

enquanto você me olha, eu me lembro disso. seus olhos são leves como a água do rio da minha adolescência: um poço de calmaria que carrega o fim bem no seu fundo, adormecido ou disfarçado de alguma outra coisa.

eu nunca aprendi a segurar meu fôlego e também nunca aprendi a prender as minhas vontades. talvez isso seja uma ruína dupla, que destrói tudo o que ela mesma cria.

ii.

minhas memórias são fragmentos de fragmentos. elas vêm e vão e eu as ligo aos cheiros e às imagens que ficaram queimadas na minha retina. pores de sol permanentes, você perpetuamente nua, as mãos para sempre jovens do meu pai. eu me recordo dos sons também, das risadas e dos choros, da banda do exército, dos apitos no carnaval.

tudo amontoado, sem laços aparentes, como roupas penduradas em um varal que o pesam para baixo pela força da gravidade, tensionando a corda, tentando em vão tocar o chão. é esse o efeito das minhas lembranças, tentativas falhas de me ligar ao que é real.

o café esfria na caneca enquanto discutimos os planos para as férias. gelo e neve, sol e areia. cidades bonitas, cidades feias. cerveja. tantos planos. é tudo tão real.

iii.

em 1983, ouvi os sinos baterem na igreja perto de casa, anunciando o início da via sacra. Jesus morto, cravos, o caixão sendo carregado pelos homens, as mulheres acarinhando seus terços. quais eram os planos deles? salvação, eu acho, mas do quê?

sempre temi o momento em que o caixão passava em frente à minha casa. ficava apavorado, olhando todas aquelas pessoas do outro lado da janela. a reverência delas estava além do compreensível e havia muita força nos seus ombros para aguentarem tanto peso.

além do de Jesus, dois outros caixões passaram pela minha porta quando eu era menino. primeiro, o que continha o André. depois, o que era ocupado pelo seu irmão, Tomás. Tomás atirou na própria cabeça com a arma do pai (sem intenção, eu acho). foi o início de anos difíceis para a família deles, que levariam a separações, brigas, mudanças, abandonos.

eles tinham uma irmã, Marcela, por quem eu era apaixonado, mas as mortes dos dois removeram de mim todo o amor que eu sentia por ela. a fragilidade me assustava, porque quando as coisas se quebram não há esforço que se possa fazer para colá-las de volta no lugar. alguns pedaços somem, os fragmentos, e eu não estava preparado para juntar os cacos dela.

eu amava a ideia da Marcela feliz ao meu lado, mas achava que essa ideia deveria se concretizar pelo seu próprio poder e não pela minha interferência. nunca aconteceu e seguimos indo e vindo durante muito tempo.

ela se casou décadas depois com um cara que conheceu na época da faculdade. sempre tive pra mim que foram felizes.

iv.

enquanto eu crescia, toda vez que me olhava no espelho eu demandava perfeição. a pele muito branca reluzia à luz do banheiro e eu encarava as rugas de preocupação como se fossem marcas de uma sabedoria que ainda não tinha adquirido.

desde muito cedo, desde que comecei a tentar entender as coisas que me aconteciam, eu esmurrava meu inconsciente tentando extrair dele mais do que realmente havia lá. mais força, mais sorte, mais qualquer coisa que me preparasse para a vida.

o reflexo pálido ria de mim. então, eu me enrolava na toalha, vestia minhas roupas e saía de casa. andava absorto pelas ruas, chegava à escola e passava horas e mais horas escrevendo fórmulas, brincando com números, trabalhando em redações sobre situações hipotéticas baseadas em histórias e fatos igualmente hipotéticos.

foi nessa época que comecei a fumar com outros neuróticos da minha turma, bem nos fundos do prédio da escola. anos mais tarde, quando começasse a trabalhar, o hábito seria acompanhando pelo consumo excessivo de café e isso abriria as portas para meus verdadeiros amores. as úlceras.

v.

1990 chegou como um bala parada no peito. foi um ano difícil não só para os soviéticos e quem mais tivesse problemas de verdade, mas pra mim também, diante da perspectiva de deixar tudo para trás e ir morar muito longe de todo mundo que eu conhecia: meus pais e amigos, Marcela, Marta e Mariana (o trio de Ms que deixava minha cabeça louca e me confirmava como um completo imbecil aos olhos de todas as mulheres).

deixei tudo pra trás, como planejado. voltei diferente de quem eu era. não me lembro mais quem era quem.

vi.

estoura o transformador e a luz do poste se apaga. as faíscas caem em direção ao chão, enquanto dançamos feito dois idiotas na rua escura.

éramos donos do tempo e o usamos para comprar o mundo inteiro. o troco, em horas, gastamos juntos três ruas abaixo observando o mar, vendo as ondas trazerem para a praia mais do que podiam levar.

éramos feitos um do outro, mais do que para. nossos ombros se curvaram juntos e lentamente com o peso da idade, que também fez as cabeças levitarem a palmos do chão, sonhando alto, mirando longe.

chegamos tão perto.

as faíscas tocam a calçada e tudo se ilumina. vejo seus olhos, brancos de luz, refletirem o que eu sou. as sombras abrem passagem, reverentes.

a noite é nossa.

vii.

quem sofre mesmo, sofre só. meu pai dizia isso enquanto me abraçava e eu chorava pela primeira vez em semanas.

eu já tinha experimentado a morte bem de perto, com meus amigos da infância, mas nada havia me preparado para o que aconteceu com minha mãe.

a pior parte era que a morte vagava um espaço que antes era ocupado por muita coisa, pela imensidão de uma pessoa inteira, e fazia isso de uma forma que interditava permanentemente aquele espaço para ocupações futuras. ninguém mais entrava lá e por mais que outros espaços crescessem, se tornassem mais frequentados, barulhentos, cobiçados, o lote vago em meio a eles continuava a poder ser visto de qualquer lugar.

eu nunca fui bom em vocalizar a minha dor. sempre senti mais do que podia falar. quando você é assim, não importa o que diga, o que não sabe dizer é sempre maior e te consome de tantas formas, em tantos momentos, que você não sabe o que fazer com aquilo, a não ser a única ação humana possível: sentir.

então, eu não falava e me permitia sentir tudo o que acontecia. o que isso gerava em mim era uma mistura de diferentes ansiedades, uma inquietação monstruosa que me dissolvia as tripas. eu olhava para tudo o que havíamos vivido juntos e sentado no quarto, lendo um livro ou escrevendo alguma coisa, deixava minha memória me presentear com os momentos passados, com cenas bonitas de um amor verdadeiro.

mas a memória é um monumento onde pichamos nossas mágoas e aos poucos as minhas lembranças eram invadidas pela dureza da realidade. os momentos que eu idealizava, as demonstrações de afeto, eram bruscamente interrompidas pela certeza de que não importava o que eu dissesse para mim mesmo ou os filmes que editasse mentalmente para meu cérebro tocar, eu sabia que a realidade era muito mais crua do que estava preparado para admitir.

e eu sabia também que, passado o luto, eu teria todo o futuro do mundo para me apegar a novas e melhores lembranças. foi assim que superei essa morte em particular.

viii.

os pratos se amontoavam sobre a pia. eu tinha desistido de limpar tudo aquilo há algum tempo e deixava a bagunça da casa sincronizar perfeitamente com o caos que também estava a minha barba.

tanta coisa ao mesmo tempo e tão pouco tempo pra tanta coisa. olhei pela janela e vi os carros passando velozes. é bom correr sabendo pra onde se vai.

a música estava muito alta e fui até o som abaixar o volume. o toque no botão descarregou um álbum inteiro do harry nilsson no meu corpo. o cérebro não aguentou tanto e derramou pela primeira vez.

no mês seguinte, alguns amigos foram me visitar no hospital. trouxeram flores, chocolates e outras coisas que os enfermeiros retiraram do quarto quando eles saíram.

eu não consegui me lembrar dos seus rostos depois que se foram.

ix.

esquecer é parte da cura. ao longo do caminho, a gente perde muita coisa, mas o que encontramos deveria compensar isso de alguma forma. deveria, mas não compensa. é fácil se tornar só aquilo que perdemos, as sobras, número ímpar em anos que são todos pares. é fácil ser uma inconstância ambulante camuflada de sei o que estou fazendo, sim, senhor. no fim, nos tornamos piadas que nós mesmos contamos. rimos, então está tudo bem, nada é tão grave que não se consiga escapar, nem tão urgente que de hoje não dê para ficar pra amanhã.

durante anos, eu me iludi e fiz pirotecnias com o cérebro e o coração que fizeram meu corpo ver um ano novo a cada dia: renovações imaginárias, ritos de passagem para lembranças que não passavam pela minha cabeça há tanto tempo que pareciam ser de outra vida. e talvez fossem mesmo, talvez fossem as peças de quebra-cabeças que eu não sabia mais montar. e tudo bem. e tudo bem?

fui coisa pouca que se achou demais e fui me achando e me perdendo e fazendo tanta bagunça e quebrando tanta coisa que no fim só me restou juntar. juntos é que deu pra me entender, mirando a diferença, enxergando o que não se cola, os quadrados tentando se encaixar em formas circulares.

tem que ter estômago pra aguentar. é bom e é ruim, é o que é, é o que está. do nada acaba, eu sei, então aguento firme até lá.

x.

sonhei que estávamos lutando numa guerra, baionetas e punhos cerrados, escalda-pés de corpos ainda quentes banhando o chão. estômago vazio, cabeça cheia de ideias que feriam como bala.

na trincheira seguinte e na outra e na próxima todos perdíamos, mas o inimigo continuava recuando. lembro de ter lido em algum lugar que derrota é vitória pra quem sabe perder.

o rio voltou à minha mente e queria vê-lo uma última vez, refletido nos seus olhos, mas a gente sempre quer mais do que pode ter.

o máximo que tinha era o fragmento dessa lembrança bastante específica e inexplicavelmente forte. um frágil elo com o passado, que dessa vez me afastava da realidade, em vez de me trazer para perto dela. me apeguei a ele pelo tempo que o tive.

xi.

na segunda vez em que meu cérebro parou, o sentimento de invencibilidade da primeira quase-morte já havia abandonado o meu corpo há meses. eu tinha voltado a ser o tipo de gente que se arrastava pelos dias, esperando que eles fornecessem respostas para suas ansiedades.

da segunda vez eu não consegui evitar. por dentro, minha cabeça e meu peito queimavam fatalmente feito brasa de cigarro, mas eu repetia para mim mesmo que nada era tão bonito quanto o que tive. nada era tão meu quanto o que eu tinha naquele exato instante.

o acaso é um fósforo queimado. seu fogo, se passado à frente, cria novas chamas e destrói tudo o que toca. a luz é tão fútil quanto o calor e na penumbra que fica quando aquela brasa se apaga em mim faíscam as últimas lembranças, o vazio tostado, o corpo reduzido a uma bituca fria prestes a ser enterrada.

xii.

perto do fim, vi meus amigos mais uma vez, é claro. voltei à infância. olhei bem dentro dos seus olhos. percebi minha mãe na soleira da porta, me esperando. me preparei para me tornar aquilo que todos estamos destinados a ser, memórias na cabeça de alguém.

o acaso foi o melhor que pude ter. enquanto ele se encarrega de fazer seu último trabalho, a fumaça que sai do meu peito se transforma em silêncio. o frio toma conta de mim.

eu me torno parte do rio.

Cientista Social. Produtor. Escritor.

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