Image for post
Image for post

Tudo é esquisito, você se sente inchado quando respira e vazio quando põe o ar para fora. Tudo é esquisito. Eu estava crescendo e quase podia sentir meus ossos se alongando, minha pele ficando mais escura e meus cabelos maiores, os olhos menores. Minha mãe deixava de segurar a minha mão quando atravessávamos a rua e isso era do que eu mais sentia falta. Enquanto crescia, eu deixava para trás a infância vivida entre quintais, praças e casas diferentes. Muitas casas. Eu não tinha um pai presente e por algum tempo achei ter sido concebido pelo Espírito Santo ou outro espírito qualquer, mas nunca fiz milagres. Ia à escola, mas não estava lá. Brincava sem ninguém por perto e corria das pessoas com quem não queria me encontrar. Eu corria de quase todos e sentava sozinho nos bancos das praças e dos pátios de onde estudava. Muita gente apontava para mim, as pessoas gostavam muito de apontar. Eu imaginava os dedos delas caindo e não me sentia bem com isso, porque elas não estariam bem se os seus dedos caíssem. Eu sentia constantemente um comichão dentro de mim, como se meu corpo dissesse: “reaja!”. Mas eu não reagia, aquela era a infância e ela estava condenada a passar, a desaparecer na memória quando eu virasse um adulto do tipo bem sucedido, que tivesse um salário bom e uma casa que parasse em pé. Eu era uma criança moderada, um pivete conservador, uma força represada da natureza que encontrava alento na ausência das outras pessoas e, principalmente, na ausência das outras crianças. Eu não era, obviamente, alegre. Não sorria com frequência, nem fazia esforço algum para parecer um modelo exemplar de filho. Tinha aversão a todas aqueles meninos que pareciam ter sido esculpidos com a matéria da qual eram feitas as crenças dos seus pais ou dos seus irmãos, dos professores ou dos amigos que se mantinham próximos a eles na hora do recreio. Ninguém havia me feito assim. Eu era sólido como uma pedra e o mundo era meu sapato, chutava a bola contra a parede porque da parede eu sempre podia esperar a mesma reação. Ela não batia na minha canela, não cuspia na minha cara quando eu errava o gol. Enquanto os anos passavam e eu crescia, meu bairro mudava comigo e a cidade que o abrigava ganhava novos prédios e novos cruzamentos, onde os carros se enfileiravam para passar de um lado para o outro. Eu passava de séries. Tirava A e B nos boletins, ganhava parabéns das professoras e meu doce preferido quando chegava em casa. Eu cresci, até me tornar um reflexo engravatado do tempo que gastei aprendendo coisas inúteis. Meu cabelo perdeu seus fios longos, minha cabeça ganhou um formato executivo. Os almoços se tornaram curtos. As noites passaram a demorar tempo demais. Enquanto eu atravessava novos anos e planilhas e férias repletas de telefonemas e decisões remotas, meus filhos eram adiados junto à casa de campo onde eu construiria um forte para eles e à visita à praia de areia branca e mar azul onde fui uma única vez quando moleque. As promoções eram tão constantes quanto as dores de cabeça, a carteira se recheava na mesma proporção em que lembranças eram adiadas. Os anos passaram e eu parei de crescer, a pele se esticou ao máximo e os ossos chegaram ao seu estado definitivo de rigidez. Eu pus o copo do meu lado direito e a garrafa do lado esquerdo, simetricamente separadas pelo espaço vazio à minha frente, onde se elevava a mesa do bar. Olhei para frente como quem busca o passado de relance. Tudo é esquisito e nada pode parar.

Written by

Cientista Social. Produtor. Escritor.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store