toco o tempo:
meus braços
carregam as horas
feito longos ponteiros;
as mãos separam
os minutos
dos seus cabelos e
entre um e outro momento
meço a distância
espero. . .
segundo me contaram
tudo recomeça
depois que termina
respiro. . .
duas vezes por dia
estou certo: feito
relógio quebrado;
na parede do quarto
na sala vazia
velas derretem
ampulhetas se viram
séculos se passam,
frenéticos.
doze avos de tempo:
é tudo o que temo
e é só o que temos.

eu toco você
dedos longos, prosa curta
perfume de estrelas impregnando a pele
— tão bela a lua!
eu sinto
nas mãos tão largas quanto o medo
você se desfazer feito terra
onde se enraíza o meu apego
o que você quer?
gotas de suor escorrem
derreto, liquefeito
em sua boca: uma taça
tão próximos…
se gênios existissem
a nos oferecer desejos
o que desejaria eu
senão o que vejo?

metade de mim é você inteira

metade de mim é você inteira
a multicor dos seus cabelos
seus pés no chão
as coisas que me diz
quando acordamos
o que esquecemos de dizer
quando dormimos
metade de mim
seu riso pela primeira vez
as lágrimas que colhi
sem ter plantado
o som dos passos
quando você chega
a falta dos passos
da sua ausência
a vida é tão longa
diante de tudo
a vida é tão curta
perto de nós
metades idênticas
em corpos desiguais
onde vivemos inteiros
partidos ao meio.

jaguar

Em tempo de cólera,
Eu olho
Impassível jaguar, insone
como um estômago vazio
A fome de vida a torturar-me o corpo
O peso dos dias
a costurar as horas;
Eu, massa falida, tão bem vestida:
Casaco jeans e calças desbotadas
para apreciar o pipiar do pássaro
que canta, mas nada.
A gaiola: o peito;
as asas: abertas
batem na praia como as ondas do mar
A água fala, a sede se acerca
No ouvido do mundo, tudo
Você ouve?
Eu olho.

she came in the night
her shadows all made of light
bolts coming out of her eyes
she had a hard and thick skin
the soil where i chose
to plant my dreams
as suddenly as she arrived
she vanished in thin air
leaving me with both hands empty
trying to catch what remained of her
inside my head, a hurricane of pain
made me realize that when she left
what remained was just the certainty
that she escaped with a part of me.

the once and future king

you’re objectified by your feelings
a ball changing hands all the time
dropping on the floor
being kicked by the children
you’re the byproduct of your fears
packaged together with past hopes
a wish coming true
but only for those who can pay for it
and you can’t afford yourself
you’re the negative balance
in an almost 30 years old
expired credit card bill
you’re alive at the expense
of the debt you owe
to all those who invested on you
you’re the post-capitalism’s prodigal son
a firstborn of the days that are to come
the once and future king
of a handful broken dreams.

Eduardo Furbino

Cientista Social. Produtor. Escritor.

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